Chuva

Acordo, penso eu que seja cedo…por entre as frinchas da persiana vejo pouca luz, a suficiente para perceber onde estou e com quem estou.

Olho em volta, reconheço as paredes, os móveis, as cortinas, o cheiro, o ambiente…estou no meu quarto, no meu canto, no meu espaço. Sento-me na cama para tentar recuperar do sono, ligo a televisão para tentar ter um pouco de noção das horas…pelos programas que passam percebo que é demasiado cedo para estar acordada. Mas agora o sono passou, estou sozinha, no meu canto, não tenho com quem falar, apenas comigo mesma…

Numa tentativa frustada fecho os olhos a tentar chamar de novo o sono, mas a chuva a bater distrai-me, cai forte, sinto-a a bater na janela, no chão da varanda, nas grades à volta da casa. Já percebi que é tarde demais para adormecer e cedo demais para acordar…

O cansaço não me autoriza a levantar, mas certamente não teria nada de emocionante para fazer, não a estas horas, não neste momento. Decido-me a ficar deitada, neste meu canto que tão bem me conhece. Então converso comigo, penso e repenso sobre coisas que numa outra hora diga-se normal do dia não estaria a pensar. Não sei se será da chuva ou do frio, ou do vento e da escuridão, mas este ambiente leva-me a pensamento profundos…

Fico assim, tempos que parecem infinitos, a falta de sono já não me preocupa, a mente ainda está um pouco entupida, nem sei se penso com clareza, nem sei tão pouco se ainda estou acordada. Tento perceber, mas não consigo, todos os movimentos que faço parecem em camara lenta, e os pensamentos sao um pouco confusos, um pouco agitados…a respiração altera-se bastante sempre que tento perceber o porquê de estar acordada. Talvez seja apenas da chuva, ou talvez não…fico num impasse mas acabo por adormecer…

Acordo com o toque habitual do despertador, sinto algo nos meus braços, a minha gatinha de meses completamente enrolada no meio do meu cotovelo à procura de conforto. Afinal não estava sozinha, secalhar nem acordei, pois vejo alguma luz a rasgar na persiana, secalhar foi só um sonho, fiquei bastante agitada sem razão nenhuma. Levanto-me com cuidado para não acordar a pequena e faço a minha rotina matinal, ainda bastante ensonada sem perceber realmente porquê.

Saio porta fora e…

Olho para a estrada e ali está, a prova de que sim choveu, sim eu estive acordada a pensar e voltei a adormecer. A chuva faz-me esquecer, mas também me faz lembrar, que até nos momentos mais serenos há sempre algo que nos pode incomodar. Por mais que tudo pareça um sonho, às vezes temos que nos mentalizar que a vida também é feita de momentos agitados, e devemos sim enfrenta-los, e não simplesmente adormecer e fingir que não aconteceu. Pois acordamos e as provas de que aconteceu estão lá, o frio, a chuva e o vento podem ter desaparecido, mas fica sempre algo para nos recordar que vivemos esses momentos de aflição.

Resta-me apenas sorrir, e aceitar descer estas escadas, calcar a estrada, sentir este cheiro a rua molhada, e lembrar-me que a vida não é só feita de ventos quentes e raios de sol, mas também de ventos gelados que nos cortam a respiração e chuva forte que nos estorva a vista, Temos de saber olhar por entre as gotas, e procurar respirar fundo nos momentos mais criticos.

A confiança em nós mesmos tem de ser uma prioridade, pois somos quem melhor nos conhece, com quem mais conversamos, e em quem mais acreditamos. É com essa força que devemos acordar todos os dias, e sair de cabeça levantada para a vida, quer esteja um dia espetacular de sol, ou um dia cinzento repleto de chuva.

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