Adeus conforto

Queria falar sobre um tema, que teve um grande impacto na minha vida, que pode ter sido um dos momentos cruciais para mudar a minha forma de ver o mundo e tudo o que ele envolve…

Emigração…hoje mais que nunca um tema bastante abordado, criticado, e muitas vezes desvalorizado…

Eu não falo por experiência própria pois nunca o fiz, e nem sei se teria coragem de o fazer, mas falo por ser o espelho das saudades que este tema traz anexado.

Falo da minha familia, como uma familia que nunca teve pouco nem nunca teve muito…teve sempre o suficiente…como muitas familias devem entender do que falo, eu quero dizer que quando havia pouco, o amor que havia entre nós compensava a falta de tudo o resto, tudo o que é fútil mas infelizmente faz falta…

Em alguns momentos os meus pais, e falo deles de peito cheio pois não podia ter mais orgulho em alguém como tenho neles, tiveram que recorrer aos filhos quando se viram incapazes de contornar alguns problemas, claro que para um pai isto é doloroso pois o que eles querem é que a gente cresça sem preocupações e tenha tudo o que precisa e não o contrário. Mas nós filhos, e falo também nos meus irmãos inchada de orgulho pois tivemos a sorte de termos crescido numa familia cheia de amor e educação, queriamos sempre em primeiro lugar o bem estar da familia, mesmo que isso significasse menos para nós…

Durante alguns tempos vimos os nossos pais sofrerem até se cansarem e decidirem que pelo menos um deles deveria procurar algo melhor, visto que no nosso país eles são velhos demais para trabalhar, apenas restou uma opção…

E assim foi, fiquei apenas com a minha mãe, equanto o meu pai trabalhava num país desconhecido e sozinho longe de tudo  que ele ama…muitas foram as chamadas em que só o ouvia soluçar do outro lado, em que o sentia fraquejar e querer desistir de tudo o que tinha lutado, mas sendo eu teimosa e orgulhosa engolia o choro e tentava dar-lhe discursos de apoio, na tentativa de dar-lhe alguma força para ele não desistir…nunca fui de ser hipócrita, mas eu sabia que o melhor, não…a única opção deles era mesmo esta, e então fazia discursos sobre heróis e glória, e de como ele era um exemplo para mim, quando no fundo só queria pedir que ele voltasse.

Muitas foram as noites que adormeci a ouvir a minha mãe chorar no quarto ao lado, mas não pude deixar comover-me pois fui chamada à atenção no trabalho de que não estava a dormir direito e isso afectava o meu trabalho e qualquer problema pessoal deve ficar fora da porta…

É nestas alturas que me revolto, não por ser comigo mas porque sei que é um mal geral…muitas pessoas nao entendem a dor de ter um ente querido longe, acham sempre que é uma alegria pois está a lutar por algo melhor e esquecem-se de todo o sofrimento que essa “boa vida” como chamam tem por detrás.

Esquecem-se de que pessoas como o meu pai, viajam sozinhas, para países desconhecidos, sem amigos, sem nada!Apenas com uma esperança de no fim do dia chegar do trabalho e ouvir uma voz de alguém conhecido para ter forças de aguentar mais um dia…esquecem-se que essas pessoas trabalham de domingo a domingo às vezes 12h por dia, mas ainda há quem diga, “pois trabalha mas ganha”….esquecem-se que noutros países o salário é mais alto, mas as contas também o são!Pagam por meros T1 ou estúdio cerca de 1.000€, por um bocado de carne para o jantar 50€. Esquecem-se que estas pessoas não gastam 60 centimos para ir tomar café, pois não podem dar-se a esse luxo.

Passado uns meses lá conseguimos convencer a minha mãe a fazer companhia ao meu pai, pois o trabalho deles aqui já estava feito, 3 filhos criados capazes de lidar com as situações do dia-a-dia sem ter que recorrer a ninguém…conseguimos em conjunto com todo o esforço da familia dar a prenda que o nosso irmão mais novo tanto queria, entrar na universidade de veterinária…nunca me perguntei se valeu a pena todo o esforço, pois no dia que sairam as colocações ver as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto e os gritos histéricos de alegria valeram tudo e mais alguma coisa.

Hoje já estou mais conformada, pois já percebi que não vale a pena revoltar-me com pessoas que já têm ideias fixas e manhosas, e que nem vale a pena argumentar pois quem não quer entender não entende mesmo.

Hoje tenho 24 anos, tenho 2 empregos, trabalho 11 horas por dia, tenho casa e animais para cuidar, apenas tenho o Domingo livre e uso-o para estar com os meus irmãos…hoje sou alguém porque os meus pais me ensinaram que por vezes é preciso dizer adeus ao conforto, mas o conforto está sempre nos braços das mesmas pessoas que nos recebem passado meses afastados…

O meu conforto vai estar sempre naquele abraço de aeroporto que tive de aprender a lidar, o meu conforto está na Suiça, nos braços daqueles que me ensinaram que o conforto nem sempre está perto mas que por ele vale sempre a pena lutar.

Advertisements

Um final feliz

Eu disse que não, e fechei os olhos…serrei os punhos com toda a força que tinha no momento, recusei-me a aceitar, recusei deixar cair a lágrima que teimava verter…gritei comigo, em silêncio…

De todos os momentos difíceis que já tive na vida, dizer adeus é sem dúvida o que mais me transtorna…não gosto…e pronto.

Nunca sei se é um adeus, um até já…não tenho por característica ser medrosa ou cobarde, mas dou por mim nesse momento a dizer adeus vezes sem conta como se sofresse de síndrome compulsivo…talvez esperando que o adeus não aconteça e que mais tarde a saudade não apareça, porque eu sei que vai aparecer.

Sempre me custou deixar aqueles que amo partirem, porque me afeiçoo, porque não me importo de sofrer para não ver dor nos outros. Por isso me despeço sempre com um sorriso e uma piada, enquanto a alma se contorce por dentro. Dou demais de mim, tanto que sempre que alguém parte, é como se levasse uma parte de mim, uma parte que dói, que é arrancada com a despedida…com o adeus que tanto tento ignorar.

Os dias passam, e a despedida fica mais turva, mais esquecida, menos dolorosa…mas não há nada nem ninguém que apague a saudade…que quando me invade, é como uma facada no peito, um aperto nos pulmões e o nó na garganta…e mais uma vez fecho os olhos e nego-me a sofrer…nego que esta dor me impeça de seguir em frente porque eu sei que este sentimento de agonia é provisório…até eu conseguir aceitar que nem todos os que amo vão ficar sempre por perto…

Por vezes um adeus, é um até já…e um até já pode ser um adeus…nunca irei saber e por isso a minha negação. Talvez um dia perceba, talvez um dia aceite, mas os momentos deviam ser cautelosamente planeados para que os sentimentos pudessem ser organizados…

Alegria de rever-Alegria de Viver-Alegria de Estar Junto-Preocupação de Afastar-Pensar no Adeus- O Adeus- A Dor- A Saudade-Negação-Aceitação-Alegria de rever…

Mas se assim fosse a vida seria como um livro, cheia de capítulos, com inicio meio e fim…mas na minha vida mando eu e enquanto tiver páginas em branco para escrever a minha história vai desenrolar-se por paisagens lindas, com personagens únicas e criadas à medida, enquanto acreditar que a despedida reversível, a minha história vai dar voltas e voltas até eu ter o meu final feliz.