Vontade de viver

Mais uma vez lá entrou ela sozinha no hospital, a sangrar por todos os poros que o seu corpo tinha. Cambaleava tentando chegar para ser atendida.

Uma das enfermeiras reparou e tentou apressar-se para socorre-la, outra enfermeira já mais antiga agarrou-a no braço: “Não vás, é normal. Costuma aparecer aqui de tempos a tempos sempre a lutar para se manter de pé e não admite que alguém a vá ajudar.”

Chegou ela perto das enfermeiras e com as poucas forças que tinha murmurou: “Mais uma vez, penso que seja do coração.”

A enfermeira mais experiente deu um ar de sorriso mas ao mesmo tempo de calma: “Anda comigo”

Saiu e a rapariga seguiu-a pelos corredores: “Podia oferecer-me para te ajudar já estás bastante fraca mas sei que vais recusar por isso vamos procurar-te uma cama enquanto esperas pelo médico.”

“Obrigada” Foi a resposta.

Deitada na cama, fraca, abatida, lavada em lágrimas esperou pelo médico, o que já a conhecia e o único que ela deixava que a tratasse.

“Aqui está ela Sr.Doutor, mais uma vez.”

“Então pequena, que se passa com esse coração enorme?”

“Arrancaram mais um pedaço.” perdida em lágrimas “Às vezes gostava que o coração fosse mais pequeno, que o arrancassem de uma vez. Pelo menos não sofria tanto.”

O médico sorriu passou-lhe a mão na cabeça:”Acho íncrivel que uma menina tão pequena tenha um coração desse tamanho, e de todas as partes que já te tiraram, ele continua a encher-te o peito. Devias sentir-te orgulhosa.”

“Orgulhosa?!” Limpou as lágrimas “Ninguém merece isto, viver cheia de cicatrizes e quando estão quase a sarar, aqui estou eu outra vez.”

“Pequena, um coração grande carrega muita responsabilidade, se o tens é porque o mereces. As cicatrizes são apenas para te lembrar que nem toda a gente é como tu. Sim, devias estar orgulhosa.”

“Doutor, neste momento a única coisa que aprendi e que vive dentro de mim é que sei o que não quero, algum dia hei-de saber o que quero? Algum dia vão deixar de me magoar assim?”

“Estás a ver? Ainda nem te tratei e já sabes a tua cura, talvez nunca na vida a gente saiba o que quer, mas vai aprendendo o que não quer e afastar-nos do que nos faz mal. Um dia esse coração gigante vai estar cicatrizado, vais deixar de vir aqui mas vais sempre aprender. Aprender magoa, basta olhar para ti, mas recuperas sempre. Vá, vamos lá tratar dessas feridas.”

“Rápido doutor, com esta conversa fiquei cheia de vontade para ir viver.”

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Era isto.

Amor é isto.
Amor é ser doente.
Amor magoa, mas a gente gosta.
Amor bate, mas pedimos sempre mais.
Amor cura, todas as feridas que faz, ele cura.
Amor é deitar-me no teu peito,
Ser embalada pelas batidas do coração.
Amor é ser lamechas, e ter um sorriso idiota.
Amor é partilhar parvoices,
Amor é fazer lutas na cama ao acordar.
Amor é amuar, e esperar um abraço para fazer as pazes.
Amor é muita coisa, e às vezes é tão pouco.
Depende dos dias, depende do amor.
Amor não é sempre igual.
Existe aquele amor que sufoca, que sabemos que nunca vai dar certo.
Aquele amor que ilude, serve apenas para curar outro.
Existe o amor da amizade, que dura para sempre.
Existe o amor impossível, que nunca vai acontecer.
E existe o nosso, aquele que ninguém entende, nem tem que entender.
Uma mistura de tudo com um toque de nada.
Porque alguns dias quem importa somos nós,
E se eu estiver bem, tu estás bem.
Nosso amor é simples e é nosso.
Era isto.