Carta de uma emigrante.

Olá meu querido amigo e confidente!
Parece que já não falamos à imenso tempo…
eu sei que falamos todos os dias,
estas modernices dos telemóveis com video-chamada, pacotes gratuitos para estrangeiro.
Sei pelo teu facebook tudo o que fizeste hoje, ontem, durante as férias e até sei a que festa vais no próximo fim de semana!
Vai estar lá muita garota, cuidado com essas selfies depois de uns copos!
Vi que tens lançado uns posts um pouco para o deprimente, sabes que podes falar tudo comigo não sabes?
Eu sei que posso falar tudo, por isso te ligo quase todos os dias e faço questão de relatar no messenger o que as pessoas no comboio estão a fazer…

A verdade é que hoje senti algo diferente, hoje falei contigo como sempre, contei-te todas as novidades e tiveste que desligar, na promessa que voltarias a ligar…
Estive toda a tarde e toda a noite, ninguém mandou mensagem a perguntar como estava…e tu não ligaste de volta…
Jantei, e nada.

Fui até á varanda, e vi um dos milhentos aviões que passam aqui por cima de casa. Lembrei-me do dia em que cheguei, passei por cima da minha futura casa, cheguei a este país em busca de algo quando nem eu sei o que quero encontrar.
Desde que aqui estou já senti saudade, mas ainda não chorei baba e ranho a ouvir um fado da Mariza.
Estou aqui, e sou emigrante. Sou uma daquelas pessoas que teve tomates para deixar tudo e sair em busca de desafios, quando só a mudança em si é um desafio enorme.
As pessoas são tão diferentes, de manhã faz frio, de tarde um sol que tosta e de noite bem, seja o que S.Pedro quiser.

Olho para trás e penso que caí por menos, já fracassei por um folha no meu caminho porque não tinha força para sopra-la para longe.
Agora que penso bem, fogo! Estou aqui, na dureza, a enviar 40 curriculos por dia, saio para a rua sempre com uma camada deles na bolsa para entregar em todas as portas que entre.
2 vezes por semana acordo cedo, e com a força que me sobra das caminhadas diárias vou para o curso de alemão, já entendo umas coisas, Genau!
É dificil, mas ainda estou aqui.
2 vezes por semana também vou dar uns toques de basket, é diferente mas gosto.

Aquilo que te quero dizer é que não preciso que fales comigo todos os dias, nem preciso de vasculhar o teu facebook para sentir que fiz parte do teu dia.
Tu foste aquele amigo que quando eu não conseguia chutava as pedras do meu caminho sem eu perceber, estava demasiado focada em procurar respostas.
Foste a última mensagem antes de entrar no avião que me trouxe até aqui.

A primeira mensagem de todos os dias.
A primeira chamada de todos os dias.
E és agora a primeira lágrima de saudade.

Hoje quando não te lembraste, senti saudade. De quando te esperava que nem uma menina na janela do quarto e corria até á porta para ver a tua sombra.
Senti saudade do teu abraço, dos teus beijos infinitos, de quando ouvias os meus desabafos deitada no teu peito.

Tudo isto para te dizer, que se não fossem estas tecnologias eu tinha percebido mais cedo, que esta vida de emigrante não vai ser fácil.
Imagina que só recebias esta carta na próxima semana, isto se ela não se perdesse pelo caminho.

E é isto meu querido, não é fácil, mas não sintas em momento nenhum que me falhaste…eu sei onde estás, como te falar, se não o faço é porque estou muito ocupada a ser forte.

Não te preocupes mais, já fizeste demais…apartir de agora, deixa comigo!

Um beijo desta recente emigrante que já está a contar os dias para o Natal, mas ainda nem tem trabalho muito menos férias…mas temos que ser positivos!

Abraça um dia de cada vez, pois no dia que eu voltar roubo esse abraço só para mim.

29 de Setembro, 2016
Kloten, Zürich

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Antes de mais. Depois de tudo.

Antes de mais queria que tudo fosse diferente.
Queria que estivesses aqui.

Que a saudade não doesse.
Que te tivesse conhecido desde sempre.

Que existisse gratidão suficiente para tudo o que foste para mim.

Que o limite não existisse.

Que o tempo não fosse tempo…

Os dias ficaram mais compridos.

As noites mais frias.
Mas mesmo assim, tu, nunca foste.
Enches o meu peito de vontade e alegria.

Que incrivel, a tua maneira de ser.
Todos os dias enfrento as lutas.
Mas a pior é não saber se amanhã não te arrependes.

Não quero que te arrependas de nada.

Não existe sitio ou hora errado.
Nunca penses assim!
Existem sim pessoas que desistem.

Que preferem acreditar no que dizem.
Mas tu não.
Tu és daqueles que como eu,

Aprendeste a dançar na chuva.
E por isso eu sei,
Que mesmo depois de tudo isto,

Tu estás e estarás, no mesmo sitio, para sempre